Fundamentos · Metalurgia do ouro
Curso básico de
lixiviação de ouro
Da caracterização do minério à interpretação de um balanço metalúrgico: aprenda o que medir, o que cada etapa faz e por que os resultados dependem do minério real.
Este curso é introdutório e educacional. A proposta de planta de 1 t/dia é um pré-projeto, não um projeto executivo nem uma folha operacional validada. Resultados e parâmetros do minério atual ainda não foram fornecidos.
Ponto de partida
O que você vai aprender
- Descrever, em sequência, preparação, lixiviação, adsorção e recuperação do ouro.
- Explicar por que amostragem, liberação mineral e mineralogia condicionam a resposta do processo.
- Distinguir CIL, CIP, extração do ouro e recuperação do produto final.
- Verificar cálculos básicos de polpa e capacidade sem confundir premissas com medições.
- Reconhecer que um balanço confiável exige dados analíticos, massas e estoques rastreáveis.
01 · Antes do processo
Conhecer o minério e obter uma amostra representativa
A lixiviação só pode atuar sobre ouro acessível à solução. Ouro livre, ouro fino exposto e ouro encerrado em sulfetos podem responder de maneiras distintas; aumentar tempo ou reagente não garante a exposição de ouro preso na matriz mineral.
Uma amostra pequena retirada apenas da superfície de um lote pode não representar a alimentação. O plano deve definir de onde vêm os incrementos, como preservar finos, como homogeneizar e dividir a amostra e como manter uma amostra testemunha. Duplicatas, brancos e padrões certificados ajudam a avaliar a qualidade analítica.
02 · Visão do processo
Da alimentação ao produto
Na rota estudada, o ouro acessível é transferido do sólido para uma solução e, depois, concentrado em carvão ativado. O carvão é um intermediário: ainda são necessárias etapas de recuperação final e um balanço que acompanhe o ouro em todas as correntes.
Gravimetria pode ser avaliada como uma etapa opcional quando os ensaios indicarem ouro livre recuperável. A contribuição precisa ser medida no fluxograma sequencial; não se devem somar percentuais de testes independentes como se fossem uma recuperação global.
03 · Fundamentos químicos
O que significa lixiviar ouro
Na rota de estudo, a cianetação forma um complexo solúvel de ouro. A equação global de Elsner resume a reação:
A representação ajuda a mostrar a participação do cianeto e do oxigênio; não é uma receita operacional. A resposta real depende de acesso à superfície do ouro, mineralogia, transferência de massa, condições da polpa e análises ao longo do ensaio.
Lixiviação
O ouro passa do sólido para a fase líquida como complexo dissolvido. Mede-se acompanhando solução e resíduo sólido.
Adsorção
O carvão captura ouro dissolvido. Isso não é a mesma coisa que a dissolução do ouro nem que a obtenção de metal.
O equilíbrio entre HCN e CN− depende da química da solução. A acidificação pode favorecer a formação de HCN, um gás altamente tóxico. Por isso, controle de pH não substitui projeto de ventilação, monitoramento, análise de risco, treinamento e resposta de emergência.
04 · Configurações de processo
CIL, CIP e CIC: onde entra o carvão?
| Configuração | Onde ocorre a adsorção | O que distingue a rota |
|---|---|---|
| CIL | Carvão e polpa ficam juntos durante a lixiviação em tanques agitados. | Lixiviação e adsorção ocorrem ao mesmo tempo; acompanham-se extração, carregamento e inventário de ouro. |
| CIP | A lixiviação ocorre primeiro; depois, a polpa lixiviada entra em contato com o carvão. | As etapas são separadas. O tempo total inclui lixiviação e adsorção. |
| CIC | Carvão em colunas adsorve ouro de uma solução de lixiviação carregada. | O circuito trata uma corrente líquida, não a polpa de minério como nos arranjos CIL/CIP. |
Uma sequência CIP executada em bateladas pode estudar as etapas, mas não reproduz automaticamente um circuito industrial contínuo com carvão em contracorrente. CIC é outra configuração: carvão em colunas entra em contato com uma solução de lixiviação, por exemplo, proveniente de lixiviação em pilha. Hidráulica, sólidos suspensos e retenção do carvão passam a ser critérios próprios da coluna. O estudo de caso da planta piloto permanece focado em CIL/CIP em tanques; CIC aparece aqui para comparação, não como configuração selecionada para esse piloto. [5]
Carvão ativado granular: função e seleção
Nos circuitos CIP e CIL, o carvão ativado granular adsorve o complexo de ouro dissolvido, [Au(CN)2]−, e pode ser separado da polpa por peneiramento. A matéria-prima de casca de coco é uma opção comercial comum para recuperação de ouro; fornecedores destacam propriedades como dureza e resistência à abrasão. Um estudo de laboratório também investigou a adsorção de ouro de solução cianetada em carvão ativado derivado de casca de coco. Esses exemplos não demonstram que todo carvão de coco seja superior para qualquer minério ou circuito. [5,6]
A adsorção depende da estrutura porosa e da superfície do carvão, mas também da química da solução, da atividade do produto, da cinética, do carregamento anterior e das condições de contato. Por isso, “mais microporos” ou a matéria-prima, isoladamente, não definem o melhor produto. O carvão deve ser avaliado com solução e condições representativas do processo.
Grades comerciais como 6×12 e 8×16 mesh aparecem em especificações de carvão para recuperação de ouro. São exemplos de mercado, não uma recomendação universal: a designação mesh deve vir acompanhada da distribuição granulométrica e do padrão de peneiramento do fornecedor. A abertura da peneira de retenção é uma dimensão diferente da classificação nominal do carvão. [7]
- O circuito é CIL, CIP ou CIC? O carvão estará em contato com polpa ou solução?
- Quais são o tamanho e a distribuição das partículas de carvão, e como o circuito vai retê-las?
- Que resultados de adsorção, atividade, abrasão e geração de finos constam na ficha técnica e nos ensaios?
- Os testes representam o minério, a água e a química da solução que serão usados?
Essas perguntas orientam a leitura de uma ficha técnica ou a elaboração de um programa de ensaios; não bastam, por si só, para selecionar ou dimensionar o carvão de uma instalação.
05 · Cálculos de referência
Conferindo massa e volume de polpa
Exemplo didático: 1.000 kg de sólidos secos, 40% de sólidos em massa, densidade do sólido assumida em 2.650 kg/m³ e densidade da água em 1.000 kg/m³.
Para Cs = 0,40, a massa de água da polpa é 1.500 kg. Usando volumes aditivos como aproximação:
Capacidade em bateladas
Para três reatores de 1 t seca por carga e ciclo completo de 72 h, a capacidade nominal teórica é 1 t/dia:
Se a disponibilidade fosse 90%, o resultado teórico cairia para 0,90 t/dia. Para atingir efetivamente 1 t/dia com a mesma quantidade de reatores e carga, o ciclo médio precisaria ser menor; o valor preliminar de 64,8 h decorre apenas dessa conta de capacidade. Nenhum desses cenários comprova a cinética ou a produção de uma planta real.
06 · Medição e qualidade
Ouro alimentado não é igual a ouro produzido
O ouro pode estar no resíduo, na solução, no carvão, nas lavagens, em concentrados ou em produtos intermediários. Para fechar o balanço, registre massas e volumes, teores, amostras retiradas e estoques que ainda não chegaram ao produto final.
Uma alimentação hipotética de 1 t com teor de 5 g/t contém 5 g de ouro. Esse número representa ouro contido no exemplo; não é previsão de recuperação nem produção de doré.
- Identificar campanha, carga, amostra, corrente, data e método de análise.
- Informar unidades e base de cada resultado; não misturar, por exemplo, concentração como CN− e como NaCN.
- Quantificar carvão, solução, resíduo, lavagens, finos e material em trânsito.
- Evitar contar o mesmo ouro como produção em mais de uma etapa do processo.
- Investigar diferenças de balanço considerando incerteza analítica, amostragem e perdas.
07 · Gestão responsável
Segurança, resíduos e responsabilidade técnica
A cianetação envolve riscos graves à saúde e ao ambiente. A gestão deve incluir avaliação de riscos, sistemas projetados de armazenamento e dosagem, segregação de incompatíveis, contenção, ventilação, monitoramento, treinamento e resposta de emergência. Os detalhes e limites operacionais pertencem aos documentos aprovados para uma instalação e um minério específicos.
Polpas, soluções, lavagens e resíduos precisam de caracterização, tratamento demonstrado e destino autorizado antes de qualquer operação. Um pH isolado, uma solução visualmente limpa ou uma recuperação de ouro não comprovam que o resíduo esteja tratado.
08 · Estado das evidências
O que é resultado real neste estudo?
Até esta revisão, o material disponível define uma proposta de piloto e reúne cálculos preliminares. Não há laudos ou registros de campanha do minério atual que confirmem recuperação, consumo, cinética, teor de produto ou desempenho de tratamento.
Quando esses dados existirem, cada resultado deverá apontar para o lote, método, laboratório, unidades, incerteza e condições do ensaio. Resultados históricos ou de outros depósitos são contexto bibliográfico, não substitutos de dados do lote atual.
Revisão do aprendizado
Questões rápidas
1. Em uma polpa com 1.000 kg secos e 40% de sólidos, qual é a massa de água do exemplo?
1.500 kg, usando a fração mássica de sólidos Cs = 0,40. É um cálculo de referência, não uma prescrição de operação.
2. O carvão ativado dissolve o ouro?
Não. A lixiviação transfere ouro acessível à solução; a adsorção transfere parte do ouro dissolvido para o carvão.
3. Um teor de 5 g/t em uma tonelada garante 5 g de produto?
Não. Indica 5 g de ouro contido na alimentação hipotética. Perdas e estoques intermediários devem ser medidos até a quantificação do produto final.
4. CIL e CIP em batelada representam o mesmo que um circuito industrial contínuo?
Não. A batelada permite comparar etapas, mas não reproduz automaticamente o escoamento contínuo e a transferência de carvão em contracorrente.
5. As classes 6×12 e 8×16 mesh são uma recomendação universal?
Não. São exemplos de produtos comerciais. A especificação deve ser conferida com a distribuição granulométrica, o padrão de peneiramento, as telas de retenção e a rota em que o carvão será usado.
Leitura complementar
Referências e materiais
- International Cyanide Management Institute. The Cyanide Code. Página institucional consultada em 01/10/2026. cyanidecode.org ↗
- International Cyanide Management Institute. Cyanide Facts. Fundamentos de química, cianetação, preparação do minério e recuperação. Consultado em 01/10/2026. cyanidecode.org ↗
- Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora nº 22 (NR-22). Página oficial com versão vigente e atualizações. Consultada em 01/10/2026. gov.br ↗
- 3DGeo. Manual da Planta Piloto de Lixiviação — Ouro em minério moído | 1 tonelada seca por dia. Revisão 01, 01/10/2026. Base de desenvolvimento e validação, não projeto executivo.
- Jacobi Group. Gold Recovery e Carbon-In-Pulp. Material técnico de fornecedor sobre recuperação em CIP/CIL, propriedades de adsorção e resistência à abrasão. Consultado em 01/10/2026. Gold Recovery ↗ · Carbon-In-Pulp ↗
- Khosravi, R. et al. (2017). “Adsorption of gold from cyanide leaching solution onto activated carbon originating from coconut shell—Optimization, kinetics and equilibrium studies”. Journal of Industrial and Engineering Chemistry, 54, 464–471. DOI: 10.1016/j.jiec.2017.06.036 ↗
- JYH Activated Carbon. Coconut Shell Activated Carbon — 6×12 / 8×16 / 12×40 Mesh. Especificações de produto de fornecedor; as classes granulométricas são exemplos comerciais, não uma norma de seleção para esta planta. Consultado em 01/10/2026. Ficha de produto ↗